domingo, 7 de agosto de 2016

Talvez a última


Mais uma vez, deitar,

Com olhos fechados,

Lágrimas no travesseiro,

E coração apertado,


Mais uma vez, chorar,

Deitada em minha cama,

Esperando algum sinal,

Pra acabar com esse meu drama,


Mais uma vez acreditar,

Que tudo vai passar,

Que será passageiro,

Amanhã quando acordar,


Mais uma vez pensar,

Que tudo pode acabar,

Eu sofro em silêncio,

Para ninguém escutar,


Mais uma vez querer,

Que seja a última vez,

Para que de alguma forma,

Eu para de sofrer,


Mais uma vez, talvez,

Seja essa a última,

Eu já estou cansada,

De chorar por você.


-Bru Gomes

sábado, 23 de julho de 2016

O amor....

Você olha para o lado e no muro mais uma frase romântica pichada. Sorri feliz e até tira uma foto, o amor está lá, pintado no e emocionando quem passar por ali e ler. O amor está escrito no papel da bala, com frases curtas e incríveis e parece o suficiente. No adesivo do carro com corações vermelhos. E agora, ele também está lá, publicado no seu mural todos os dias. O amor está sendo divulgado em frases mal elaboradas a espera de mais uma opção curtir, de mais um seguidor. Em tempos onde todos viraram poetas e discípulos do romantismo, o amor se perdeu de vez num emaranhado de palavras que, juntas dizem menos do que separadas. E ‘eu te amo’ é frase que se compra e se vende mais barato do que pastel de feira. Antes o amor era cafona, agora o amor é plágio. Vem cá, onde ele foi parar mesmo? Do luxo ao lixo. Saiu dos corações, dos beijos molhados, das surpresas e das mãos dadas para virar politicagem barata em redes sociais. O amor está em promoção: “curta um e leve dois”. A nova aliança é ‘me segue que eu te sigo’ de volta. O romance escorre nas palavras enquanto o computador está ligado, depois são lágrimas que escorrem no travesseiro sem ninguém perceber. E no dia seguinte, uma frase de Vinícius de Moraes publicada só para dizer ao mundo que você ama e é feliz. Quando na realidade não sente um beijo de verdade faz um bom tempo. Tão acostumados a escrever, nós deixamos de dizer. E quanto menos se diz sobre o amor, menos se sabe sobre ele, menos se vive e muito menos se sente ou faz com que o outro sinta. Amar não é só escrever que ama. E se quiser digitar uma poesia, faça isso com seus dedos em minhas costas, por favor! Pior do que se ajoelhar virtualmente e declarar o amor para milhares de amigos que você sequer cruzou nos corredores do colegial ler, é aceitar aquelas declarações emolduradas por uma tela de computador, com palavras previamente ensaiadas, com pedaços de músicas se encaixando perfeitamente, vírgulas nos lugares exatos, reticências poéticas e uma concordância escandalosamente perfeita num exagero beirando o precipício. O amor escrito minuciosamente. Ali, perfeito e entregue de bandeja. E você aceita essa bandeja sem questionar e sem lamentar que não pode segurar ela com as mãos. Pior é acreditar em parágrafos que circulam em Ctrl C + Ctrl V e se sentir especial. Se o amor fosse uma pessoa, com toda certeza iria encher a nossa cara de porradas e cobrar ‘que porra é essa que vocês estão fazendo comigo?’. O amor virando palhaço de circo e a gente aplaudindo. O amor na vitrine e a gente se contentando em só olhar. O amor que antes era uma linda e natural flor, com cheiro e textura, agora virando flor animada em GIF, coberta de glitter. Me diz, cadê o toque? Onde estão os ‘eu te amo’ sussurrados ao pé do ouvido? As declarações mal feitas, acompanhadas de olhares apaixonados com medo de falhar? Onde estão os arrepios e o perfume? Estão todos engavetados e esquecidos e a culpa é toda nossa, simplesmente porque nós não cobramos o amor na carne. Não exigimos o amor ao vivo, no último volume. Temos medo de encarar o real tamanho do sentimento, e então usamos escudos disfarçados de telas frias e filtros do Instagram. Se for por culpa da distância, tudo bem e a gente aceita declarações que ajudem a manter a lembrança de que o outro existe e ama. Mas faça isso com competência. Muitos querem uma grande estória de amor, mas poucos são competentes para isso. Se for virtual, prefira então as promessas. E principalmente, aquelas que se cumpram depois lá fora, no mundo real, onde a gente se olha nos olhos enquanto faz amor. Onde compartilhamos a saliva e o suor – e não apenas frases. O amor não pode ser descartável. O amor não pode ser assim, fácil de deletar. Bastando um backspace e o amor acaba. Bastando um ‘desfazer amizade’ e o amor some. Bastando uma tinta no muro e o romantismo sendo abduzido sem que ninguém note. Não! Queira do amor tudo o que ele pode oferecer. A voz, a pele, o gosto, o olhar e a dor. Viva e morra por amores profundos e reais. Sofrer por publicações é humilhante. Morrer de amor apenas por frases é decadente. Faça-me versos sim, me cante com poesias de Leminski e Drummond de Andrade. Eu não quero que as palavras morram. Mas, ao final delas, não me mande ‘beijos’ virtuais, desligue isso aí e venha até aqui me beijar.
— Camile Heloíze.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Homem não gosta de mulher que insiste com recados consecutivos, mas também não gosta de mulher que não telefona. Mulher não gosta de homem que a persegue, mas também não gosta de homem que não a procura. Homem não gosta de mulher fácil, mas também não gosta de mulher difícil. Mulher não gosta de homem doce, mas também não gosta de homem rude. Homem não gosta de mulher que fica com muitos, mas também não gosta de encalhada. Mulher não gosta de mulherengo, mas também não gosta de travado. Homem não gosta de ser questionado, mas também não gosta de ser esquecido. Mulher não gosta de ser contrariada, mas também não gosta de gente passiva. Homem não gosta de estardalhaço, mas não adia uma bagunça. Mulher gosta de estardalhaço, desde que não vire bagunça. Homem não gosta de ser debochado, mas também não suporta ser levado sempre a sério. Mulher não gosta de brincadeiras sem graça, mas não admite a ausência de brincadeiras. Homem não gosta de fofoca, mas é o primeiro a contar as novidades aos amigos. Mulher gosta de fofoca, mas deseja preservar sua privacidade. Homem não gosta de jantar na casa da sogra, mas também precisa dela. Mulher não gosta de ser comparada com as antigas namoradas, mas também quer saber todos os detalhes. Homem não gosta de ser surpreendido, mas também não gosta de saber antes. Mulher adora um mistério, mas com aviso prévio. Homem não gosta de comprar lingerie, mas também é o primeiro a criticar a que ela está usando. Mulher ama comprar lingerie, mas também é a primeira a dizer que a incomoda. Mulher prefere calcinha bege, não aparece com a roupa. Homem abomina calcinha bege, aparece demais quando ela tira a roupa. Homem não gosta de discutir relacionamento, mas também não gosta do silêncio. Mulher gosta de discutir relacionamento, mas odeia chorar no meio da briga. Homem não tolera filmes românticos, mas não desliga quando reprisados na tevê. Mulher não aguenta filmes de ação, mas também é um alívio não pensar muito. Homem tem dificuldades para se declarar, mas faz o impossível para ser denunciado. Mulher espera declarações, mas não quando está se arrumando. Homem reclama dos atrasos, mas também detesta quem chega antes. Mulher odeia a impaciência do homem, mas também se enerva com a letargia. Homem não resiste a um videogame, mas também não deseja ser chamado de criança. Mulher abusa dos diminutivos, mas também diz que cresceu. Homem pede desculpa quando machuca, mas não aceita desculpa quando machucado. Mulher se desculpa antes de errar, depois não se lembra. Mulher desvia o assunto quando se desinteressa, mas não gosta que não prestem atenção nela. Homem não gosta de ser interrompido, mas vive interrompendo. Mulher admira poesia, mas não no sexo. Homem procura agradar a mulher ao recitar poesia no sexo. Homem não gosta de unhas vermelhas, mas fica excitado com elas num filme pornô. Mulher gosta de unhas vermelhas porque detesta filme pornô. Mulher anseia pelas flores, mas nunca tem um vaso para colocá-las. Homem gosta de mandar flores, mas desiste na hora de escrever o cartão. E ambos não gostam do meio-termo.
— Fabrício Carpinejar.  

terça-feira, 31 de maio de 2016

A gente segurou a mão um do outro pela primeira vez e eu acho que isso merece algum tipo de manifestação. Era como se o mundo tivesse permissão pra acabar enquanto nós nos beijávamos no meio de um show de rap. Porque parece mesmo que aquilo que temos seja algum refúgio do mundo, ou pode ser que o resto das pessoas estejam se refugiando de nós dois. Eu não tenho certeza sobre as nossas reais intenções, mas toparia qualquer coisa pra passar essa noite do teu lado, tentando descobrir. Porque eu já não acho mais nenhum outro ser humano interessante e de repente o seu beijo é o maior abraço que o meu corpo recebeu. Eu quase cogito a ideia de um estudo científico sobre o brilho do nosso olhar quando juntos. Como se nenhuma risada do no mundo fosse mais acolhedora que a sua e como se dar as mãos, em meio a um momento difícil, fosse a melhor forma de dizer que o teu corpo e coração estão comigo. Você me faz ter vontade de rir, cozinhar, te olhar tocando violão e não me importar com nenhuma das pessoas que nos pedem calma.

Pode ser que estejamos mesmo no entusiasmo e no fim vamos acordar dessa utopia, mas não me deixa faltar esses olhares convidativos, porque eles sabem muito de mim. Não deixa perder essa fusão de sentimentos quando nos olhamos bobos e sorrindo na frente dos nossos amigos, porque sorriso era a única forma de gritar o que a gente sentia. Não me deixa mais faltar esse medo de dizer que pode sim ser amor, mas que existe falta de ar dizendo isso. Não me deixa faltar essa saudade absurda de dormir todos os dias ao seu lado, de sexo matinal, de risada descontrolada, de códigos nossos, de “me ajuda aqui a limpar o meu banheiro”. Eu te gosto de formas incorrigíveis.
Eu poderia terminar todos os domingos da minha vida te dando um beijo estranho dizendo que vou sentir sua falta, mas ao invés disso a gente ri durante a frase e se mostra maior do que qualquer saudade. Eu poderia tomar banho todos os dias e descobrir marcas suas pelo meu corpo. Poderia dizer que o convite de entrar na sua casa poderia ser pra entrar na sua vida e que te ver cozinhando é a coisa mais sexy que o mundo já me proporcionou. Eu gosto de cada centímetro de você e a minha alma sorri quando eu levo a surpresa de ganhar um “cara, tu é linda” enquanto lavo a louça.

E por mais que os nossos amigos tentem, a gente não namora, a gente não exige compromisso nem nada. A gente não se prende, mas nunca mais queremos nos soltar. A gente não tem rótulo, mas tem um ao outro como ninguém tem. A gente não tem vergonha, a gente ri quase que vinte e quatro horas por dia, a gente se aguenta no mau humor, a gente divide a cama com a sua cadela peluda, a gente bebe shots de tequila sem sal nem limão, mas com beijos. A gente divide o poder de congelar o mundo enquanto se olha. A gente não tem apelido carinhoso, mas hoje à noite eu queria te chamar de meu.

— Eduarda Leichtweis.

domingo, 29 de maio de 2016

Saudade

Às vezes bate uma saudade de tudo que já passei, desde os mementos fáceis aos mais difíceis, daqueles que pensamos que nunca iriam acabar. É como se abrisse um buraco dentro de ti, e tu caísses, sem ter onde segurar. Os anos passam, a vida passa, nós crescemos e o que fica para trás? A SAUDADE. Olho as fotos de quando criança, ou até mesmo da adolescência e mesmo acabando de sair da mesma, da um aperto no peito, só em saber que algumas pessoas que estava comigo, hoje já não estão mais. A lembrança é o que me resta, ou melhor, nos restam. Cada pessoa que faz ou fez parte de nossa vida, é um grão de areia para essa construção. Somos um monumento onde só restam as lembranças, cada qual com sua magia de fazer rir, chorar, estressar, odiar, amar, ou até mesmo aquelas pessoas que mesmo não fazendo parte do seu dia a dia, é como se ela estivesse contigo. Eu sou assim, esse poço de sentimentos, uma hora sentimental demais, outra hora nem aí,  com vontade de viajar mas também tem aquele momento de ficar sozinho, sem ninguém para falar nada, mas é uma pena que sempre tem alguém para estragar esse momento. Eu tenho disso, de sentir saudades do que já foi, do que está por vir, ou até mesmo do presente e infelizmente não estou aproveitando, é como uma dor que nunca se acaba, tem dias que sou tão sentimental que só quero ficar calado, na minha, sem ter alguém pra perguntar o porquê de eu estar assim. Sem falar de saudade, talvez até com com ciúmes das pessoas que só fazem turismo na minha vida, tenho quase certeza que é ciúmes, mesmo não fazendo tanta diferença na vida das mesmas. É, a saudade às vezes nos mata aos poucos, sem  percebermos, mas é a vida, se não há presente, não há passado, e se não há passado, não há futuro. 
Fonte:

terça-feira, 24 de maio de 2016



Eu quero que você saia e beba com suas amigas e fique de ressaca no outro dia, mas me ligue pra ir na sua casa por que esqueceu de comprar remédio pra dor de cabeça, e porque simplesmente quer me ver.


Eu quero que você me conte sobre o cara que ficou te olhando a noite toda, e como você foi educada dando uma fora nele porque simplesmente ele não era eu.

Eu quero que sejamos amigos, daqueles que xingam um ao outro com uma intimidade absurda, e que tenhamos respeito quanto o assunto for sério... Mas não vou ligar se você simplesmente rir da minha cara quando eu tiver falando algo importante pra você.

Eu quero que tenhamos nossas vidas, e que vez ou outra um de nós possa sumir sem dar notícia para o outro, e que a saudade aperte querendo que a carinha do messenger pule na tela do celular com aquele "oi" que estremece cada fibra do corpo, gela o estômago e sobe pra boca em forma de sorriso. Mas quero, que simplesmente, eu possa confiar em você quando isso acontecer, que você não irá fazer nada de errado, e que possa confiar em mim também.

Eu não quero mais essas fórmulas banais que todo mundo rotula, eu quero ser idiota, fazer alguma idiotice pra pra você rir, e rir quando você contar alguma piada sem noção. Eu não quero enlouquecer sozinho, e digo, só quero que você enlouqueça comigo.

Não quero que tenhamos aqueles jogos de indiferença como as pessoas de hoje em dia, que a gente não se procure por orgulho ou pra poder se "entregar" menos. Não quero que nosso cérebro brigue pra ver qual é o mais inteligente nesse jogo do amor, enquanto nossos corações pedem um pelo outro.

Eu quero que você seja livre, porque a liberdade surte efeito. Que você faça o que sentir vontade, a hora que bem entender, porque só eu sei o quão você é linda nesse seu mundo onde ninguém te alcança. E quando o céu abrir, e o sol chegar, eu vou te levar pra ver o mar.

Eu quero a minha vida de solteiro, e quero que você continue com a sua. Mas que sejamos comprometidos um com o outro, que apesar de tudo, no final do dia a gente possa estar deitados na minha cama juntos olhando pro teto atoa.

Que a gente se ame sem motivo. Que seja SIMPLESMENTE amor.

Assim, caso alguém tente atrapalhar, caso alguém faça fofoca, se você ficar feia ou gorda, se eu ficar pobre, ou qualquer outra coisa. Nada mude. Porque SIMPLESMENTE ainda seremos nós.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Querido John

Eu te amei desde o primeiro momento em que os meus olhos pousaram sobre os seus. Eu não tinha como saber que você namorava e você, não sei por qual motivo, não me deixou saber. Mas já se passaram dois anos e mesmo morando tão perto a gente nunca mais se esbarrou, nem mesmo quando eu ia até o seu barzinho preferido só por uma coincidência qualquer, quem sabe, finalmente te encontrar, pois é, nunca deu certo. É que já se passaram dois anos e eu continuo pensando em você. Que tolo, não? Mas foi naquela tarde ensolarada de agosto em que você me mandou uma mensagem, te juro, eu esperava uma mensagem do papai noel mas não você, que a chama reascendeu. Na verdade, ela nunca se apagou. Não sei como é que acontece, quando é amor deve acontecer alguma reação química dentro da gente, mas o nosso corpo sabe quando é. É natural, o sorriso acontece mesmo sem querer, as pernas ficam bambas, o coração aperta só de ouvir ele chamar seu nome. A gente sabe quando é até mesmo quando nega, bate o pé e diz que não é. Estou escrevendo esse texto porque nunca teria coragem de te dizer tudo isso. Ah, já se passaram dois anos e eu continuo um bobo apaixonado. Você se quer me deu esperanças, mas eu nunca precisei. Quando se gosta de alguém a gente mesmo cria as próprias esperança, tira forças não sei de onde para persistir e acreditar que vai acontecer. Sempre me perguntam por que eu nunca namorei. Não sei se sou eu, mas nunca aconteceu, sabe? Eu nunca deixo ninguém permanecer tempo suficiente até as coisas ficarem sérias. Mas semana passada, minha amiga me perguntou se eu nunca amei ninguém. Demorei algum tempo pra responder, dizem que um filme passa na nossa frente quando estamos perto da morte, eu deveria esta morrendo de amores, porque vi você sorrindo. Então respondi que não, nunca amei ninguém. É, já se passaram dois anos, e eu continuo te amando.

domingo, 15 de maio de 2016

O amor.

Semana passada liguei pro meu melhor amigo e convidei para um cinema. A gente não se falava desde o ano novo, quando tudo deu errado pro nosso lado. De tempos em tempos sumimos, falamos umas coisas horríveis de quem se conhece demais. Ele topou desde que fosse daqui pra frente, preguiça de conversar da briga e tal.E fomos. Cheguei antes, comprei. Ele chegou depois, comprou água. Porque eu comprei os ingressos, ele comprou também uns doces e disse que pagaria o estacionamento. Porque ele pagaria o estacionamento, eu disse que daria a carona da volta. E com meu coração tão calmo eu voltei a sentir o soninho de sofá de casa com manta que sinto ao lado dele. A gente não se beija nem nada, mas quando vai ver pegou na mão um do outro de tanto que se gosta e se cuida e se sabe. Já tivemos nossos tempos de transar e passar nervoso e aquela coisa toda de quem ama prematuramente. Mas evoluímos para esse amor que nem sei explicar. Ele me conta das meninas, eu conto dos caras. Eu acho engraçado quando ele fala “ah, enjoei, ela era meio sem assunto” e olha pra mim com saudade. Ele também ri quando eu digo “ah, ele não entendeu nada” e olho pra ele sabendo que ele também não entende, mas pelo menos não vai embora. Ou vai mas sempre volta. Não temos ciúmes e nem posse porque somos pra sempre. Ainda que ele case, more na Bósnia, são quase quinze anos. Somos pra sempre. Ele conta do filme que tá fazendo, eu do livro. Os mesmos há mil anos. Contar é sem pressa de acabar. Se ele me corta é como se a frase que eu fosse falar fosse mesmo dele. É um exibicionismo orgânico, como se meu silêncio pudesse continuar me vendendo como uma boa pessoa. São quinze anos. É isso. Ele me viu de cabelo amarelo enrolado. Eu lembro dele gordinho e mais baixo. Ele sempre comprou meus testes de gravidez, mesmo a suspeita nunca sendo nossa. Eu já fui bem bonita numa festa só porque ele queria me fazer de namorada peituda pra provocar a ex mulher. Minha maior tristeza é que todo novo amor que eu arrumo vem sempre com algum velho amor tão longo e bonito. E eu sofro porque com pouco tempo não consigo ser melhor que o muito tempo. E de sofrer assim e enlouquecer assim, nunca dou tempo de ser muito para esses amores porque estrago antes. Mas meu melhor amigo é meu único amor. O único que consegui. Porque ele sempre volta. E meu coração fica calmo. E ele vai comigo na pizzaria e todos meus amigos novos morrem de rir porque ele é naturalmente engraçado e gente boa e sabe todos os assuntos do mundo. E todo mundo adora meu melhor amigo. E eu amo ele. E sempre acabamos suspirando aliviados “alguém é bobo como eu, alguém tem esse humor” e mais uma vez rimos da piada que inventamos, do pai que chega pro filho e fala: sua mãe não é sua mãe, eu transei com outra”. E esse é meu presente dessa fase tão terrível de gente indo embora. Quem tem que ficar, fica.
Tati Bernardi

terça-feira, 10 de maio de 2016

Então hoje, quem diria, eu desisti. Acreditem! Desisti de achar que o mundo é todo flores, que é possível ser feliz de qualquer jeito, a qualquer hora. Existem, sim, dias em que nada dá certo e não há nada capaz de nos fazer sorrir por muito tempo. Existem dias em que nada é mais libertador do que um choro acompanhado de soluços. Desisti de deixar a tristeza de lado sempre, porque às vezes tudo o que nossos olhos pedem é um pouquinho de lágrima. Todo mundo precisa de um banho demorado para tentar lavar a alma, um dia inteiro sem contato visual com qualquer pessoa, uma noite de insônia. Todo mundo precisa sofrer um pouco, de vez em quando. Sofrer é libertador! É triste, é desesperador, muitas vezes, mas é necessário. É a nossa provação, o fogo que forja nossas espadas. Não mata, ainda que pareça corroer; não sufoca, mesmo que ocasione certa falta de ar. Mas também precisamos desistir às vezes. Não de tudo, não dos sonhos e dos anseios, e sim de batalhar tão corajosamente, quando os outros já se encontram acampados e descansados. Permitir-se jogar no campo e fingir-se de morto. Saber aceitar que algumas lutas já se perderam no tempo. Desistir por um ou dois minutos, só para sentir a leveza no corpo, o agridoce na ponta da língua. Ser realista por dez segundos, até ser atingido por outro sonho, ainda maior, e voltar a pensar positivo. Esvair-se em lágrimas e deixar que os pés fraquejem por um momento.Todo mundo precisa desistir! Desistir para recuperar as forças, quando tudo cansa, tudo pesa. Abandonar a si mesmo para que permita-se um dia inteiro se arrastando pela casa, sem culpa ou pressão das obrigações. E foi exatamente o que eu fiz: cedi. Não atendi telefonemas, não me deixei acordada por muito tempo, não me ergui e nem me obriguei a seguir a mesma rotina novamente. Larguei o medo de ser triste, porque minha felicidade exaltada nada mais é que o medo de sofrer, e fui me abater livremente! Como se não houvesse amanhã, fui toda desalento por hoje e mais mil anos. Hoje, guardem bem essa data, eu desisti. Porque amanhã, vejam bem, amanhã já é outro dia. É dia de segurar outra a vez a espada forjada com o fogo de hoje e partir para a próxima. Quem é que sabe quantas lutas o amanhecer me reserva?
— rio-doce