segunda-feira, 21 de março de 2016

Muita coisa inacabada porque a gente acabou - Part V

“7 meses depois. Chinelos laranja, cabelo extremamente molhado, bermuda e uma camisa preta rasgada, é assim que você me vê quando abre a porta. São três da manhã e seus olhos nem estão abertos direito. Calcinha branca de bolinhas amarelas! É assim que eu te vejo. Então a segunda coisa que você vê é o sangue escorrendo pelo meu pescoço, e o ferimento enorme do lado da minha cabeça. “QUE PORRA É ESSA?” O cara que você tá pegando procura uma toalha para cobrir seus seios. Eu e você? Imóveis. Eu? Segurando a respiração. Você? Derramando uma torrente de palavrões mentalmente. “QUEM É ESSE CARA? FALA COMIGO… MAS QUE DROGA!” E a porta se fecha na minha cara. A gritaria vem em seguida. Escorrego até o chão e fico ali, sentado ao lado da porta do seu apartamento, penso que é a coisa mais infantil que já fiz. O barulho acaba antes que os vizinhos comecem a acender as luzes do corredor, a porta se abre e o cara sai com os sapatos nas mãos, o seu cara. Me encho de uma alegria, e não tenho medo de soar egoísta: ele não vai mais pegar nos seja peitos, pelo menos não hoje. “Você pode entrar agora” sua voz ecoa pelo corredor vazio. Entro meio sem jeito, tonto com todo o stress da noite, seu cachorro imediatamente pula nos meus pés e começa a balançar o rabo desesperadamente. “E aí garotão.” O telefone toca, é o síndico, reclamações do barulho, e alguém denunciou um invasor no prédio. Você parece calma, como se estivesse falando com um bebê, fala, fala e fala e depois desliga. “Vamos fazer um curativo nisso aí.” E me olha desconfiada, quase com saudade do meu rosto, eu também. Abre e fecha a boca algumas vezes. Percebo que você está conversando sozinha, se perguntando se deve ou não falar algo. Pode ficar aí com sua conversa interior, enquanto eu te dispo com a minha mente, e te beijo por algumas horas, até o sono acabar com tudo. Deixa esse curativo pra lá e me dá colo, me leva pra sua cama, quero sentir de perto o cheiro de canela da sua pele, desamarrar esse seu cabelo e tirar o sangue do meu corpo no seu banheiro. Percebo que você está falando, talvez já esteja falando por algum tempo. “Olha aqui… Você pode ficar do outro lado da cidade, sem me mandar um SMS sequer, pode esquecer o aniversário do nosso afilhado, não dá as caras no enterro do meu pai… Você pode fazer o que porra quiser com essa sua vidinha miserável. Mas você não pode, nunca, nunca, aparecer no meu apartamento as três da manhã. Entendeu?” Agora estamos sentados lado a lado, você com as mãos na cabeça, claramente decepcionada demais para fazer qualquer outra coisa. Quero muito falar algo, quero muito falar que você fica irresistível com essa toalha cobrindo o corpo seminu, embora saiba que nada que eu diga vai arrumar toda essa catástrofe que criamos. Sei que foi a sua bondade que me colocou para dentro e não o seu amor. Sei também que algumas coisas não podem ser consertadas, e apesar da tragédia da situação, não consigo me sentir só, mesmo com toda a melancolia, as sirenes lá fora, a música clássica que seu vizinho autista está ouvindo, o seu cachorro sentado entre nós no sofá, nada disso me faz sentir aquele desespero que sinto o tempo todo quando estou perto de alguém. Você se levanta, me dá uma outra cerveja, pergunta se me sinto melhor, me manda tirar os chinelos, e fala que tem uma blusa limpa ali no quarto do seu irmão. Coloco a camisa limpa por cima da suja, porque é isso que tenho feito com a minha vida nos últimos meses. A gente se olha um pouco demais, agora brigando em silêncio. Você irritada. Eu estou sentindo falta de você irritada. “Eu sei, eu sei, pisei na bola” “Você não pisou na bola, pisou o estádio inteiro.” Mas você não me engana, não me diga que não sente um pouco de paz agora, nem que seja por dois segundos, não é nada bonito mentir, garota você tem os mesmos olhos que eu, os olhos de quem procura por algo que não sabe o que é, em lugar que não sabe onde fica. “Eu também, também estou procurando esse lugar tranquilo que você tanto fala.” É por isso que invadi sua casa, eu também quero dar o fora daqui, aqui as pessoas são rápidas demais, eu também tantas coisas… “Está ficando tarde.”Fala logo que não quer ser levada pra cama sem um eu te amo concreto, fala que prefere me mandar embora que sentir uma pontadinha de esperança, que talvez possa ou não, acabar em merda. Percebe a incerteza da coisa? Fala pra mim que odeia sair da zona de conforto, dessa sua vida programada, cheia de coisas que você precisa fazer agora pra fazer algo mais tarde, pra ser alguém mais tarde. Enfim, está realmente ficando tarde. Peço por gentileza que me devolva meus chinelos e abra a porta. É surpreendente a facilidade com que você acha as chaves e destrava tudo, e liga para o porteiro dizendo que alguém está descendo. Então é isso, até qualquer outro dia. “Até.” Você não consegue falar as três letrinhas direito. São só três letrinhas. Qual a dificuldade? E me pergunto se você faz isso porque me ama ou porque odeia ser amada por mim. Quando a porta se fecha, você não sabe, mas eu fico ali por mais um tempo, fico ali por muito tempo.”

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